Como calcular custos em um ateliê de costura ou pequena confecção

Saber quanto custa realmente produzir uma peça é uma das informações mais importantes para quem possui um ateliê de costura, pequena confecção ou trabalha com produção artesanal.

Muitas vezes o cálculo é feito apenas somando tecido, linha e aviamentos.

O problema é que uma peça também consome tempo de trabalho, energia elétrica, manutenção das máquinas, espaço, equipamentos e diversos outros recursos.

Se esses custos não entrarem na conta, uma peça que aparentemente dá lucro pode, na realidade, estar sendo vendida com uma margem muito pequena ou até mesmo com prejuízo.

Neste artigo vamos mostrar uma maneira relativamente simples de calcular o custo de fabricação de uma peça, sem entrar em impostos ou despesas comerciais.

A ideia é trabalhar com três grandes grupos:

Matéria-prima + Tempo de produção + Gastos gerais de fabricação


1. Comece pela matéria-prima

O primeiro grupo normalmente é o mais fácil de identificar.

É tudo aquilo que é utilizado diretamente para produzir a peça.

Por exemplo, para confeccionar um vestido podemos ter:

  • tecido;
  • forro;
  • renda;
  • guipir;
  • elástico;
  • zíper;
  • linha;
  • botões;
  • entretela;
  • aplicações;
  • etiquetas;
  • outros aviamentos.

O importante é descobrir quanto de cada material é efetivamente utilizado em uma unidade produzida.

Exemplo

Imagine um vestido que utiliza:

Material Quantidade utilizada Custo
Tecido 2 metros R$ 36,00
Forro 1,5 metro R$ 15,00
Renda 1,2 metro R$ 9,60
Zíper 1 unidade R$ 4,00
Linha estimativa por peça R$ 2,00
Etiqueta 1 unidade R$ 1,40

Matéria-prima total = R$ 68,00

Esse é o primeiro componente do custo.


2. Não esqueça das perdas de material

Na costura, dificilmente todo o material comprado se transforma em produto acabado.

Existem:

recortes, aparas, encaixe de molde, pontas de tecido, defeitos, testes, ajustes e pequenas perdas durante a produção.

Por isso, dependendo do tipo de produto, pode ser interessante acrescentar um percentual de perda ao consumo calculado.

Imagine que os materiais de uma peça custem R$ 68,00 e sua perda média seja de 5%.

O cálculo seria:

R$ 68,00 × 5% = R$ 3,40

Portanto:

Matéria-prima ajustada = R$ 71,40

O percentual correto deve ser encontrado acompanhando sua própria produção.

Algumas peças permitem um excelente aproveitamento do tecido. Outras apresentam perda muito maior por causa de modelagem, estampas, desenhos ou posicionamento dos moldes.


3. O tempo também é matéria-prima da confecção

Esse talvez seja um dos custos mais esquecidos pelos pequenos ateliês.

Imagine duas peças que utilizam exatamente R$ 50 em materiais.

A primeira demora 30 minutos para ser produzida.

A segunda demora 3 horas.

É evidente que elas não possuem o mesmo custo de fabricação.

Por isso é necessário transformar o tempo de produção em dinheiro.


4. Como calcular o custo da hora de trabalho

Uma forma prática é estabelecer quanto custa uma hora produtiva dentro do ateliê.

Para simplificar, imagine que uma costureira represente um custo mensal de R$ 3.000 para a operação.

Agora precisamos descobrir quantas horas realmente produtivas ela possui durante o mês.

Não é recomendável simplesmente considerar todas as horas em que ela permanece no ateliê.

Durante o dia também existem:

trocas de linha, preparação das máquinas, organização do posto, movimentação de materiais, pequenas paradas, ajustes e outras atividades.

Imagine que sejam consideradas 160 horas produtivas por mês.

O cálculo seria:

R$ 3.000 ÷ 160 horas = R$ 18,75 por hora

Portanto, uma peça que utiliza duas horas de trabalho teria:

2 × R$ 18,75 = R$ 37,50

de custo relacionado ao tempo.


5. Cronometre as etapas da produção

Para descobrir o custo corretamente, não é necessário adivinhar o tempo.

Cronometre.

Uma peça pode passar por várias operações:

Corte → preparação → costura → acabamento → revisão → embalagem

Imagine o seguinte exemplo:

Operação Tempo
Corte 15 minutos
Preparação 10 minutos
Costura 55 minutos
Acabamento 15 minutos
Revisão 5 minutos

Tempo total:

100 minutos

Ou:

1 hora e 40 minutos

Se o custo da hora produtiva for R$ 18,75:

1,67 × R$ 18,75 = aproximadamente R$ 31,31

Esse é o custo de tempo daquela peça.


6. Cuidado com uma diferença importante: tempo da peça e tempo da pessoa

Em uma pequena confecção, essa diferença começa a fazer bastante diferença.

Uma máquina pode executar determinada operação enquanto o trabalhador realiza outra tarefa.

Da mesma maneira, um produto pode permanecer algum tempo aguardando uma etapa sem consumir mão de obra naquele momento.

Por isso, para um cálculo mais preciso, deve-se observar principalmente o tempo efetivamente utilizado pelos recursos da produção.

Em operações predominantemente manuais, o tempo do operador normalmente é a principal referência.


7. O que são gastos gerais de fabricação?

Além dos materiais e do trabalho diretamente utilizados na peça, existem despesas necessárias para que o ateliê funcione.

São os chamados gastos gerais de fabricação.

Podem entrar nesse grupo:

  • energia elétrica;
  • aluguel da área produtiva;
  • água;
  • manutenção de máquinas;
  • agulhas;
  • óleo e lubrificação;
  • lâmpadas;
  • ferramentas;
  • equipamentos de corte;
  • ferro e equipamentos de passar;
  • depreciação das máquinas;
  • limpeza;
  • materiais auxiliares;
  • pequenas reposições;
  • equipamentos utilizados na produção.

Mesmo que seja difícil saber exatamente quanto de aluguel ou de energia uma determinada blusa consumiu, esses valores fazem parte do custo da produção.

Eles precisam ser distribuídos entre as peças produzidas.


8. Uma maneira simples de distribuir os gastos gerais

Imagine um pequeno ateliê com estes gastos mensais relacionados à fabricação:

Gasto Valor mensal
Aluguel proporcional da produção R$ 1.500
Energia R$ 600
Manutenção das máquinas R$ 300
Materiais auxiliares R$ 200
Depreciação/equipamentos R$ 400

Total:

R$ 3.000 por mês

Agora imagine que o ateliê possui aproximadamente 400 horas produtivas mensais.

Então:

R$ 3.000 ÷ 400 = R$ 7,50 por hora produtiva

Esse valor pode ser incorporado ao custo das peças conforme o tempo necessário para fabricá-las.

Uma peça que demora duas horas absorveria:

2 × R$ 7,50 = R$ 15,00

de gastos gerais de fabricação.


9. Podemos juntar mão de obra e gastos gerais em um único custo por hora

Para pequenos ateliês, essa é uma forma bastante prática de trabalhar.

No nosso exemplo:

Custo de mão de obra por hora: R$ 18,75

mais

Gastos gerais de fabricação por hora: R$ 7,50

igual a:

Custo da hora produtiva = R$ 26,25

Agora fica muito mais fácil calcular qualquer produto.

Se uma peça leva 1 hora:

R$ 26,25

Se leva 2 horas:

R$ 52,50

Se leva 30 minutos:

R$ 13,13

Se leva 15 minutos:

R$ 6,56

Isso transforma o tempo em uma medida concreta de custo.


10. Fórmula simples para calcular o custo de uma peça

Podemos então utilizar esta fórmula:

Custo da peça = Matéria-prima + Perdas + (Tempo de produção × Custo da hora produtiva)

Vamos voltar ao nosso vestido.

Matéria-prima:

R$ 68,00

Perdas de material:

R$ 3,40

Tempo de produção:

1 hora e 40 minutos

Custo da hora produtiva:

R$ 26,25

Custo referente ao tempo:

1,67 × R$ 26,25 = R$ 43,84

Portanto:

R$ 68,00 + R$ 3,40 + R$ 43,84 = R$ 115,24

Custo de fabricação do vestido: aproximadamente R$ 115,24

Esse número é muito mais útil do que considerar apenas os R$ 68 de materiais.


11. Custo não é preço de venda

Essa diferença é fundamental.

Se calculamos que uma peça custa R$ 115,24 para ser produzida, isso não significa que R$ 115,24 seja seu preço de venda.

Esse é apenas o custo industrial ou custo de fabricação utilizado no nosso exemplo.

Ainda podem existir outras despesas do negócio e, naturalmente, é necessário existir margem para que a empresa seja economicamente sustentável.

Neste artigo, entretanto, estamos isolando apenas o que está relacionado diretamente à fabricação.


12. Uma peça barata pode custar caro por causa do tempo

Esse conceito é especialmente importante em artesanato e costura.

Considere dois produtos:

Produto A

Material: R$ 40

Tempo: 30 minutos

Custo do tempo a R$ 26,25/h:

R$ 13,13

Custo aproximado:

R$ 53,13

Produto B

Material: R$ 25

Tempo: 3 horas

Custo do tempo:

R$ 78,75

Custo aproximado:

R$ 103,75

Apesar de utilizar menos material, o Produto B custa praticamente o dobro para ser produzido.

Esse é um dos motivos pelos quais analisar somente o preço do tecido ou do aviamento pode levar a decisões equivocadas.


13. Comprar melhor também reduz o custo da peça

Depois que o custo começa a ser medido corretamente, fica mais fácil identificar onde estão as maiores oportunidades.

Se um produto utiliza muito material, vale procurar:

melhor aproveitamento do corte, compra em quantidade, fornecedores mais competitivos e alternativas de materiais.

No caso de rendas, guipir, elásticos, sianinhas e outros aviamentos, pequenas diferenças de custo por metro podem se tornar relevantes quando multiplicadas por centenas de peças.

Por outro lado, não adianta economizar R$ 1 no aviamento se a mudança fizer a costureira gastar dez minutos adicionais para aplicar o material.

É preciso analisar material e produtividade juntos.


14. Padronizar o trabalho ajuda a descobrir o custo real

Quando cada peça é confeccionada de uma maneira diferente, medir custos torna-se muito difícil.

Mesmo em um pequeno ateliê, vale criar uma ficha simples para cada produto.

Ela pode conter:

Produto: Vestido modelo 01
Tecido: 2 metros
Forro: 1,5 metro
Renda: 1,2 metro
Zíper: 1 unidade
Tempo de corte: 15 minutos
Tempo de costura: 55 minutos
Tempo de acabamento: 15 minutos
Tempo total: 100 minutos
Custo de fabricação: R$ 115,24

Com o tempo, essa ficha também ajuda a comparar modelos.


15. Produzir mais rápido não significa necessariamente trabalhar mais rápido

Existe uma diferença importante.

Aumentar produtividade não significa simplesmente pedir que uma costureira costure mais depressa.

Muitas vezes o ganho está em eliminar movimentos desnecessários.

Por exemplo:

material separado previamente, linhas disponíveis no posto, máquinas reguladas, sequência correta das operações, moldes organizados e peças agrupadas por operação.

Se uma peça passa de 60 para 50 minutos sem reduzir a qualidade, houve um aumento significativo de produtividade.

Em uma produção de 100 unidades:

10 minutos economizados × 100 peças = 1.000 minutos

ou aproximadamente:

16 horas e 40 minutos de capacidade produtiva liberada.


16. O custo por minuto pode facilitar ainda mais

Para pequenas operações de costura, trabalhar com custo por minuto é bastante prático.

Se o custo da hora produtiva for:

R$ 26,25

então:

R$ 26,25 ÷ 60 = R$ 0,4375 por minuto

Podemos arredondar para:

R$ 0,44 por minuto produtivo

Uma operação de 20 minutos:

20 × R$ 0,44 = R$ 8,80

Uma peça de 75 minutos:

75 × R$ 0,44 = R$ 33,00

Para uma pequena confecção com muitos modelos diferentes, essa metodologia torna os cálculos muito mais rápidos.


17. Faça uma ficha de custo para cada produto

Uma ficha simples já resolve boa parte do problema.

Modelo de ficha de custo

Item Custo
Tecido R$
Forro R$
Renda/guipir R$
Elástico R$
Zíper R$
Linha R$
Outros aviamentos R$
Perdas R$
Tempo de produção minutos
Custo por minuto R$
Custo do tempo R$
Custo total de fabricação R$

O importante não é ter inicialmente um sistema sofisticado.

É começar a medir.


18. Quanto mais você mede, melhor fica o cálculo

No começo, alguns números serão estimativas.

Depois de alguns meses, o próprio histórico da confecção começa a mostrar informações importantes.

Você pode descobrir, por exemplo:

  • quais peças consomem mais tecido;
  • quais modelos apresentam maior perda;
  • quais operações demoram mais;
  • quais produtos usam demais determinada máquina;
  • quais aviamentos são responsáveis por grande parte do custo;
  • quais produtos são mais fáceis de produzir;
  • quais modelos aparentemente simples consomem muitas horas.

Essas informações ajudam não apenas a formar preços, mas também a decidir o que vale a pena produzir.


Perguntas frequentes sobre custo de produção em costura

Como calcular o custo de uma peça de roupa?

Some o custo dos materiais consumidos, as perdas de matéria-prima e o custo correspondente ao tempo utilizado para fabricar a peça.

Uma fórmula simples é:

Custo = matéria-prima + perdas + tempo de fabricação × custo da hora produtiva.

Como calcular o custo da hora de uma costureira?

Divida o custo mensal relacionado ao trabalho pela quantidade de horas efetivamente produtivas durante o mês.

Como incluir aluguel e energia no custo da roupa?

Uma alternativa simples é somar os gastos gerais mensais da produção e dividir pelas horas produtivas do período. Assim é possível obter um custo indireto por hora.

Preciso contar linha no custo?

Sim.

Mesmo sendo um valor pequeno por peça, linha, agulhas e outros materiais auxiliares fazem parte da fabricação. Dependendo da operação, podem ser calculados individualmente ou por uma média.

Como calcular a perda de tecido?

A melhor maneira é comparar a quantidade de tecido consumida pela produção com a quantidade efetivamente incorporada às peças ao longo de determinado período.

Com esse histórico, pode-se criar um percentual médio de perda para cada tipo de produto.

Devo calcular o tempo de corte?

Sim.

Corte, preparação, costura, acabamento e revisão fazem parte do processo produtivo e consomem recursos.


Conhecer o custo muda a maneira de administrar um ateliê

Calcular custos não precisa ser complicado.

Para um pequeno ateliê ou confecção, começar controlando três elementos já representa um enorme avanço:

1. Quanto material a peça consome

2. Quanto tempo ela demora para ser produzida

3. Quanto custa manter uma hora da produção funcionando

Com esses três números, o empreendedor deixa de trabalhar apenas com percepção e passa a tomar decisões baseadas em dados.

E existe uma conclusão importante:

o material mais barato nem sempre produz a peça mais barata.

Um tecido difícil de cortar, uma renda difícil de aplicar ou um aviamento que exige mais operações podem aumentar o tempo de fabricação a ponto de eliminar a economia obtida na compra.

Por isso, em uma pequena confecção, comprar bem e produzir bem precisam fazer parte da mesma conta.